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Edição de 02-02-2018
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SECÇÃO: Opinião

Que Escola, afinal!

Há vários anos que pensava na possibilidade deste testemunho e várias foram as vezes em que pensei neste assunto, contudo, nunca me deu para “passar para o papel” tal anseio e só agora é que se concretiza tal ideia, considerando que há uma certa revolta contra a Escola e os docentes.
Aristóteles disse que “educar a mente, sem educar o coração, não é educação!”, o que pressupõe que o educador saiba tocar o coração da criança / jovem que lhe está confiado, aliando a mente e o coração do educando, tarefa que não é fácil.
Nos dias de hoje, com as nossas crianças pessimamente educadas (algumas estão fora deste rótulo), com o primeiro pilar da educação a falhar (a FAMÍLIA), fácil é concluir que um professor não consegue conquistar o âmago daquele pequeno ser, pois a educação já vem enviesada de origem!
O papel dos pais é fulcral na educação das crianças que entram no ciclo de aprendizagem e sem eles nada se conseguirá fazer de válido para esses mesmos seres aprendizes. Os pais não podem ser os primeiros a reclamar o trabalho dos docentes, sem que se verifique, de concreto, onde paira a razão. Criticar, só por criticar, não é benéfico, nem prudente, pois geram-se forças antagónicas, quando juntas são insuficientes para “levar o barco a bom porto”.
Todos sabemos, e a sociedade reconhece-o, que se verifica uma certa ausência de estrutura familiar em determinadas famílias atuais e isso tem tido reflexos na vida escolar, pois se os filhos não respeitam os pais, como hão de respeitar os professores?
Certa professora, em determinada Escola, ao receber um pai / encarregado de educação, a quem apresentava os fatores negativos comportamentais do filho, adolescente com 14 anos, ouviu a seguinte exclamação:
- “Srª professora, não sei que fazer ao meu filho ... Ajudem-me, pois não sei chegar lá sozinho!”
Igual a esta cena, que foi real e aconteceu numa Escola do norte do país, poderíamos apresentar uma enormidade delas, que acontecem nas nossas Escolas portuguesas, que muitos de nós conhecemos, contudo, nada acontece, pois só está em causa o aluno, jamais o docente.
Se um aluno não tem regras, nem obedece aos regulamentos da Escola, o que espera a sociedade dele? E da Escola, que esconda a cabeça na areia, como a avestruz? Ai do docente que repreenda um aluno de modo um pouco mais severo, pois recebe, logo, as “carícias” do progenitor do aluno revoltado. Que se bata num professor, isso é normal, mas reprender um aluno é crime.
São as vicissitudes da vida, onde tudo é permitido aos alunos ou pais e onde se recrimina o papel do docente, sem se saber onde reside a correção ou bom senso. Tal como nas famílias, onde os pais não podem deixar de ter papel diretivo e informativo, também os professores, como segundos pais, não devem abdicar de tal função, nem renunciar ao exercício da autoridade, correndo-se o risco de abandalhar o sistema e cairmos na anarquia de algumas famílias, tal como os exemplos televisivos que um canal nos tem apresentado, ao serão dos domingos.
O grande pedagogo e filósofo brasileiro Paulo Freire, falecido em 1997, afirmou, certo dia, que “não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor. Se a educação sozinha não transformar a sociedade, sem ela tão-pouco a sociedade muda”.
Perante esta desconformidade, teremos que adiantar que a função da Escola é transmitir ensinamentos, conhecimentos, (jamais educar, no sentido de educação base), mas não deve comunica-los de forma abrupta, tal como os vasos de comunicação, onde o “sábio” despeja toda a sua sapiência e o ignorante, infeliz, capta e regista a aprendizagem. Nada disso! Ensinar não é nada disso!
Quem ensina deve ter a preocupação de não procurar encharcar a mente do aprendiz, mas criar-lhe possibilidades para a procura do saber e despertar-lhe a curiosidade para o conhecimento! Só dessa forma se verifica a verdadeira transformação / permuta da transmissão, onde o mais beneficiado será o educando.
A produção do saber pressupõe empatia entre os dois seres, o mestre e o aprendiz, sendo que aquele deve apontar caminhos, lançar e orientar pistas, espicaçar a mente. Para comprovar isto temos o supracitado Paulo Freire, que defendia que o docente deve ser um facilitador do pensar certo, permitindo uma capacidade crítica ao aluno, por forma a tornar-se um ser inquieto, questionador, curioso, humilde, sincero, honesto, persistente, …
Só nesta ambivalência a Escola poderá funcionar e, embora os críticos possam existir, só cumprirá os seus objetivos na tentativa de fazer melhores os seus alunos, muito embora surjam alguns impossíveis no percurso. Quem faz o mundo são os professores e não haverá profissões sem o ser docente.
Cora Coralina disse que “o saber a gente aprende com os mestres e com os livros. A sabedoria se aprende com a vida e com os humildes” e é essa modéstia que os alunos e pais devem ter, para que a aprendizagem seja a mais viável e o educando seja o mais beneficiado. Com a ajuda dos pais este desiderato será cumprido e estes devem capacitar-se que "só é possível ensinar uma criança a amar, amando-a".

Por Adérito Rodrigues, Prof.

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