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Edição de 25-07-2014
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Arquivo: Edição de 25-05-2012

SECÇÃO: Opinião

Inquietando

José Rolita Caniné*, Poeta que honra com a sua presença a "Varanda das Estrelícias", brindou-nos com mais um delicioso livro de quadras - "inquietando" - da Editora Prefácio.
Foi lançado a 24 de Fevereiro de 2005, na Livraria Verney, da Câmara Municipal de Oeiras, e o agradável espaço revelou-se pequeno para receber tantos amigos e admiradores.
O Prefácio é da autoria de António Manuel Couto Viana, grande vulto da Cultura Portuguesa.
joaquim evónio
*Ver biografia do Autor em "Espaço aberto"
DUAS PALAVRAS DE APREÇO
Há precisamente seis anos, o meu ilustre amigo coronel Manuel Bernardo quis apresentar me um amigo seu, também algarvio, também coronel, que, à maneira do seu conterrâneo António Aleixo, compunha quadras facetas, quer de proveito e exemplo, quer de escárnio e maldizer.
O meu amor à poesia iria, decerto, admirar a inspiração do amigo, de seu nome José Caniné.
Fomos os três almoçar juntos.
Desde o primeiro instante, reconheci no poeta um espírito vivíssimo, jovial, agudo no comentário extremamente mordaz. As quadras sucediam-se-lhe a propósito de tudo, com o rigor da perfeição versificatória e a graça adequada.
Durante toda a refeição, José Caniné brindou-me com o seu talento de poeta à maneira tradicional portuguesa, fez-me rir e fez-me pensar, recordou-me, com beleza e sabedoria, outros cantores que têm o meu agrado nesta difícil modalidade.
Vem-me, súbito, à memória, aquela pergunta de uma senhora a um famoso poeta francês:
- É fácil ser-se poeta?
Retorquiu ele, acertadamente:
- Ou é muito fácil ou é impossível.
Assim acontece com o quadrista. E quantos grandes poetas não conseguem sê-lo! E dou, como exemplo, Fernando Pessoa que, ao querer tentar a modalidade, falhou quase redondamente.
José Caniné não falha nunca. Elas, as suas quadras, surgem-lhe em catadupas, de rima apurada e métrica exemplar.
Nada, nelas, é forçado: brotam sempre espontâneas, como água jorrante da nascente, pura e canora.
E, no entanto, quantos anos estiveram essas águas retidas na mina, até brotarem, em borbotão, para a nossa avidez, para o nosso prazer.
Perdemos-lhe, com tal atraso, quiçá o ímpeto amoroso que classifica a juventude, mas, em compensação, elas trouxeram-nos a ciência do homem adulto, do homem amadurecido.
E é essa experiência enriquecedora que permite a José Caniné julgar, com severidade, os erros do mundo actual e, sobretudo, da nossa classe política, para quem é impiedoso; de quem põe a sangrar as orelhas compridas e felpudas, asperamente zurzidas.
Com este humor e violência, só conheço, em Portugal, a musa de João Saraiva, que vestiu de ridículo os homens públicos finisseculares.
Bem-vindo, José Caniné, à alegria do nosso Parnaso!
Quando teve a gentileza de me pedir para lhe dedicar À Moda da Vida umas breves palavras prefaciais, não hesitei, embora consciente que não eram elas a dar prestígio ao seu livro. Mas somente por ter a honra de juntar o meu nome à sua estreia literária.
Agora, que se dispõe a dar à estampa, para a satisfação dos seus leitores, um novo volume de quadras, decidiu, uma vez mais convidar-me para lhe escrever meia-dúzia de laudas, naturalmente de apreço, pois o autor prossegue, brilhantemente, na sua inspiração, ora lírica ora satírica, alinhando quadras como estas que logo decorei, risonho e comovido:
"Um juiz bem mais depressa
Impõe a sua razão,
Se, ao julgar, usa a cabeça,
E, ao punir, o coração."

"A poesia mais bela
É a que tem o talento
De mostrar, através dela,
Como a gente é cá por dentro.

"Se se diz que Deus não dorme
Como é que Ele deixa, então,
Que além morra gente à fome
E aqui deitem fora o pão?"

"Melhor que o prazer da mesa
Que, um dia, alguém inventou,
É ver, no fim, que a despesa
Houve outro alguém que pagou."

"Minha neta, nesse beijo
Que me dás com tanto afecto,
Com que saudades revejo
O meu tempo, quando neto!"

E esta mais, dedicada a um presidente que se exibe em maratonas populares:
"Sei que gostas de correr,
Também gosto, e só te digo
Que pra mim era um prazer
Um dia correr contigo."


Outras, tantas outras, atingem, como setas envenenadas, a sociedade, os casos da vida, criticando, gracejando, desabafando...
E sempre Inquietando os espíritos, como nos revela, exemplarmente, no título do livro.
Ao partilhar com José Caniné o confortante convívio de algumas refeições, ao reconhecer-lhe a simplicidade que identifica as almas grandes, a verdadeira sabedoria, vem-me sempre à memória uma das suas quadras que bem iluminam o seu retrato correcto:
"Quase sempre os 'sem valor'
Provam aos que valem bem
Que quem tem valor maior
Não liga ao valor que tem!"

José Caniné "não liga ao valor que tem", que é muito. É um homem modesto, que canta como respira.
Que os seus amigos e admiradores, que são quantos o conhecem e o escutam e o lêem, não cessem de estimulá-lo a continuar no seu magistério cheio de chiste e profundidade, para bem da Poesia Portuguesa e da moralidade cívica nacional.

(11.12.2004) António Manuel Couto Viana

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