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Edição de 12-09-2014
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Arquivo: Edição de 11-05-2012

SECÇÃO: Opinião

CONDECORAR AS MÃES-CORAGEM DO MUNDO RURAL
UM LONGO E BELO SONHO DE CAVACO SILVA PARA O PRÓXIMO 10 DE JUNHO!

Sonhar é bom! Já o poeta António Gedeão dizia: - “… o sonho comanda a vida, / e sempre que o homem sonha, / o mundo pula e avança, / como bola colorida / entre as mãos duma criança!”
Numa destas últimas noites primaveris também eu tive um longuíssimo e belo sonho! Qual autómato, sonhei que deambulava então pelos nobres aposentos do Palácio de Belém! A dada altura desse meu sonho, dei por mim a escutar uma animada conversa entre os dois inquilinos mais ilustres daquela famosa Casa Nacional. Mas, para meu espanto, rapidamente percebi que a dita prosa era também ela fruto de um sonho que o Senhor Presidente Cavaco Silva acabara de ter precisamente naquela mesma noite! Notei que conversavam sobre as festividades do próximo 10 de Junho e da corajosa luta das mulheres de ontem e de hoje, sobretudo daquelas heroínas que, no dia-a-dia labutavam e labutam no esquecido e mal-pago mundo rural português!
Logo após o início do seu consulado como Presidente da República, foram os portugueses informados pelo casal Cavaco Silva, que o Palácio de Belém não seria opção para sua residência oficial. Para esse efeito iriam continuar a servir-se da sua própria casa situada na rua do Possolo, à Lapa. Todos conhecemos também, aquele habitual rigor que este PR costuma imprimir no estudo dos dossiês que lhe vão sendo entregues pelo Governo e a pressa que sempre tem em vê-los arquivados fora da sua secretária de trabalho, sobretudo para não estragarem o brilho e o fresco odor transmitido pelas flores da bonita jarra que a sua esposa Maria faz questão de ali colocar diariamente!
Tendo aquela extraordinária reunião de sábado com o Senhor Primeiro-Ministro sido de intenso trabalho e, como de saída lhe deixou sobre a mesa montes de papelada para analisar, sugeriu ele então à esposa para ali dormirem naquela noite. Como são unha-com-carne e se entendem às mil maravilhas - (pois até são primos) -, ela de imediato concordou e assim fizeram. Após o pausado jantarito que em sonho lhes vi comer com razoável apetite, passaram depois ao salão contíguo, onde saborearam uma chávena de bom café e ligaram a televisão. Feita a busca da programação disponível nos 4 canais portugueses, detiveram-se naqueles picantes diálogos do bem-humorado “Café Central”, da RTP 2 -, conversas cruzadas entre o taxista Águas com o jovem bloquista Félix e a jeitosa manicure Cátia. Sintonizaram posteriormente o canal da SIC, para nele verem um pouco da novela brasileira “Insensato Coração” e, por último, deram ainda uma rápida espreitadela no canal “Play-Boy”!
Eram já 2 horas da manhã quando se foram deitar. Acordou então o Senhor Presidente por volta das oito e meia, queixando-se de leves dores de cabeça. Como a esposa ainda dormia e para que não acordasse, virou-se com muito jeito para o outro lado. Foi então que se lembrou que estivera sonhando e logo começou a rebobinar o dito filme. Quando a esposa acordou por volta das 10 horas e fez menção de se levantar, disse-lhe então o Senhor Presidente: “Não te levantes ainda, Maria. Tenho uma grande “estória” para te contar:
Uma vez que estamos aqui só os dois juntos (e mais ninguém nos ouve) vou revelar-te um sonho que durante esta noite me ocorreu:

Um pouco desconfiada com tão repentina novidade, logo lhe ripostou Maria: “Mau, mau, Aníbal. Não me assustes. Lá por que dormiste hoje num Palácio, não me venhas dizer que sonhaste com princesas ou com aquelas mirabolantes ninfas do Tejo sonhadas pelo mulherengo Camões! Nada disso. O que aconteceu, disse-lhe o Senhor Presidente, é que passei grande parte desta noite a sonhar e quero transformar esse meu sonho numa autêntica realidade. Desembucha, homem, ripostou Maria!
Pois bem. Posso mesmo dizer-te que nesse meu estranho sonho, andei a vaguear ali pelas bandas de Boliqueime, e regressei mesmo aos nossos áureos tempos de namoro! Passei em revista muitos dos nossos anseios e recordei aquelas tuas preocupações sociais a respeito dos esforçosos trabalhos do mundo rural daquela época, sobretudo o que era então realizado por aquelas corajosas mulheres do nosso concelho de Loulé e de São Brás de Alportel, na chamada zona do “barrocal algarvio”!
Mas, curiosamente, a parte mais importante da “estória” desse meu sonho passava-se bem longe do Algarve, e ainda nem tínhamos casado. Acontecia no Douro Vinhateiro, mais precisamente no concelho de Santa Marta de Penaguião! A convite dum vinicultor duriense de “meia tigela” amigo do meu pai, fomos ambos (tu e eu) passar uma semana de férias naquela bonita região. Foi aí nessa parte do meu sonho que eu quase te vi chorar!
vai continuar ...
Ao observares o rude e quase escravo trabalho daquelas mulheres durienses de todas as idades, tu não contiveste a emoção e tiveste mesmo de te amparar no meu ombro! Com os teus próprios olhos viste algumas delas já com grandes barrigas, quase a dar à luz, carregando à cabeça pesados canecos de lata, contendo calda de sulfato para abastecimento dos pulverizadores manuais ou atómicos, instrumentos destramente manejados pelos homens na cura das videiras! Com a espantosa elegância das gaivotas, trepavam elas agilmente por escadas do tipo romano – (folhas de xisto cravadas em balanço nas paredes) – vencendo socalco-a-socalco as íngremes inclinações topográficas do terreno, rumo ao topo das propriedades! Carregavam igualmente à cabeça pesadas pedras de 20 ou 30 kgs para os pedreiros que construíam novos muros de suporte dos vinhedos ou reconstruíam outros caídos pelas enxurradas invernais, muros que ao Douro conferem a tal beleza paisagística, hoje justamente considerada Património da Humanidade! Vimos aquelas sacrificadas gentes caminhar por um estreito caminho com pouco mais de metro e meio de largura, todo esburacado de altos e baixos, rumo ao rio Corgo ou às suas ribeiras adjacentes, num percurso de cerca de uma hora para cada lado, carregando pesadas bacias de zinco à cabeça, por vezes com um filhote de tenra idade no colo e um ou dois agarrados à saia. Ali, retidas quase todo o dia, com pouco para comer, dedicavam-se à extenuante tarefa de lavar, corar e secar as roupas do quotidiano familiar! Era um trabalho ingrato de gigantes! Não tendo eletricidade, também não tinham televisão nem eletrodomésticos. Cozinhavam num dos cantos do chão da casa, em potes de ferro com três pés ou em panelas de barro preto de Bisalhães, em improvisadas lareiras feitas de barro e de pedras, utilizando como combustível os restos florestais ou as vides sobrantes das podas das videiras. Engomavam as roupas com pesados ferros a carvão! Vindimavam, apanhavam e carregavam sacos de azeitona, etc. Para além de todos estes enormes sacrifícios e de povoarem o país com generosas proles de cinco, dez ou mais filhos e de os educarem honestamente para a Vida, estas heroínas ainda acrescentavam riqueza ao seu País, cuidando do asseio das próprias casas, dos animais e de algumas pequenas parcelas agrícolas!
Por isso, Maria, está mais que decidido. Neste próximo 10 de Junho não vai haver condecorações para a catrefada de gestores Públicos, deputados e deputadas e outros políticos do costume. Aquilo a que pomposamente eles próprios se arrogam chamar de vanguarda portuguesa! Qual vanguarda, qual carapuça. Já estou farto dessa presunçosa gente! Para mim eles não passam duns “pavões” de umbigo inchado e de penas cada vez mais coloridas pelo ouro que anualmente levam do já mais que esmifrado Orçamento do Estado! Pelo menos este ano, os políticos e os gestores Públicos que se cuidem. Já lhes basta as escandalosas mordomias em polícias a guardar-lhes as portas, carros, motoristas, gasolina, telemóveis, cartões de crédito, escandalosos bónus anuais, secretárias e assessores até para lhes engraxar os sapatos!
As condecorações deste ano irão sobretudo contemplar uma boa vintena de abnegadas Mães-Coragem, antigas e modernas, baluartes de retaguarda deste cantinho Ibérico! Irei propor ao Chanceler das Ordens Honoríficas que procure estas heroínas pelo interior rural de Trás-os-Montes, Alto Douro, Beiras, Alentejo e Algarve, etc., para que lhes seja dado o devido destaque e o merecido reconhecimento Nacional! Em tempos de grave crise é esta a boa altura para exaltar os enormes sacrifícios destas anónimas guerreiras do Bem! São estas Mães que numa constante luta pelos campos, em fábricas de transformação de produtos ou pelos vinhedos se mantêm firmes no seu posto em defesa deste nosso esquecido e desvalorizado mundo rural!
Já te deste conta, Maria, da fulcral importância duma boa retaguarda para o progresso de um país, para o bom êxito dum exército, ou mesmo até para as vitórias duma equipa de futebol? Sem uma corajosa e participativa retaguarda o que teria sido do general grego Xenofonte, na famosa retirada dos Dez Mil; do nosso herói e Santo D. Nuno Álvares Pereira, na celebérrima Batalha de Aljubarrota; do general Wellington, na recantada Batalha de Woterloo, e até mesmo do grande general De Gaulle, nas conquistas contra os nazis, na fatídica II Guerra Mundial? Mesmo com os famosos craques Messi e Ronaldo, já imaginaste o que seria do Barcelona e do Real Madrid, se cada uma destas equipas não possuíssem uma valente retaguarda composta pelos seus outros 10 muchachos?
Os altos dirigentes de um qualquer país têm obrigação de olhar por todos os seus concidadãos em geral. Mas devem ter especial atenção para com os de maior debilidade económica. Os ricos sempre se souberam defender muito bem, por si próprios!
Não sou eu que volta-e-meia na comunicação social digo aos portugueses que o Chefe de Estado é o regular garante do bom funcionamento das instituições? Por isso, deve também ser o regular garante da boa distribuição das condecorações!

Por Alfredo Martins Guedes

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