O Semanário de Trás-os-Montes e por excelência da Região Demarcada do Douro
Notícias do Douro Notícias do Douro
Notícias do Douro
[ Inquéritos ][ Fórum ][ Farmácias ][ Futebol ][ Agenda ][ Tempo ][ Pesquisa ][ Assinaturas ][ Publicidade ][ Ficha Técnica ]Subscrever RSS RSS
Edição de 17-10-2014
Pesquisa
Livro
Alto Douro Vinhateiro Alto Douro Vinhateiro Versão Inglesa
 

Arquivo: Edição de 11-05-2012

SECÇÃO: Opinião

LAMEGO. BERÇO DA EUROPA MODERNA?

(D. Afonso Henriques – os Mistérios e a Lógica, é um livro do reguense Altino Cardoso que, na sequência dos estudos do medievalista lamecense Almeida Fernandes, pode alterar por completo a génese da nossa História.
Com a fundação de Portugal, a Europa dos castelões e dos senhores feudais, daria, pela primeira vez, lugar à Europa das Pátrias organizadas, com leis generalistas, com planos abrangentes.

foto
Se calhar, o D. Afonso Henriques, super herói, brutamontes, mata-mouros, que batia na mãe e ia à guerra embriagado, não era nada disso, mas um homem sábio, treinado duramente, e superiormente instruído para desempenhar o seu papel de iniciador de uma nova Europa.
Iniciado e instruído por Egas Moniz. Aqui. No Ribadouro)
Antes de mais, quero ressalvar que não venho aqui optar ou especular sobre o local de nascimento de D. Afonso Henriques. Sobre a matéria já muito se falou e editou. E dado que a ciência sobre este assunto não pode dar uma resposta cabal, e tudo o resto que sabe é de natureza documental, muitas das vezes controversa, aceito sem constrangimentos o seu nascimento em Guimarães. Mas também porque, para o assunto que aqui me traz, tal pormenor é irrelevante.
O que me interessa saber é onde foi criado, como e porquê.
A este propósito, acabo de ler, na sequência de outros de vários autores e dele mesmo, um último estudo do reguense Dr. Altino Moreira Cardoso, que reputo de simplesmente brilhante e cuja leitura aconselho a todos os que se interessam pela História e, particularmente àqueles que, aqui no Douro e por estas terras de Ribadouro, procuram nos vestígios das penedias a verdade do passado.
Chama-se o livro: D. AFONSO HENRIQUES – Os Mistérios e a Lógica.
Em que é que este livro me entusiasmou?
Para além da envolvência narrativa abrangente e completa, Altino Cardoso consegue dar-nos um retrato daqueles tempos do início de Portugal, e integrá-los no espaço mais vasto da Europa.
foto
Almeida Fernandes, investigador histórico de Britiande, que infelizmente já não está entre nós, defendia a hipóteses de Afonso Henriques ter sido criado aqui, em Lamego, em terras de Egas Moniz, poderosíssimo senhor feudal cujos feudos se estendiam por este Ribadouro acima, Beiras e Minho. Almeida Fernandes chegou a aventar a hipótese do nosso 1º rei ter nascido em Viseu, conclusão que remexeu do avesso os historiadores portugueses. Mas, como disse, o importante do trabalho de Almeida Fernandes (que é considerado como o maior medievalista português do século XX) é a sua certeira pesquisa na demanda dos primeiros tempos de Afonso Henriques. Contudo, o trabalho ficaria onde Almeida Fernandes o pôde deixar ficar. O que faz Altino Cardoso é pegar no que Almeida Fernandes estudou, esmiuçar ainda mais as razões que então tinham sido aduzidas, e seguir um pouco mais em frente.
Nesta busca da verdade (e a verdade, se não é científica, será sempre uma dúvida) Altino Cardoso vai mais longe, numa lógica imparável, onde arquiteta um puzzle de circunstâncias, interesses e factos, que se encaixam com tal rigor e precisão que será, pelo menos, desleixo, não atender ao que ele narra.
A tese de que D. Afonso Henriques teria sido criado em Lamego, na casa de Egas Moniz, criação essa que não seria inocente nem descabida de outros desígnios, ganha com esta obra, uma nova dimensão: passa-se da dimensão mítica para a dimensão da ciência histórica. Passa-se da lenda para o real.
É evidente que não posso aqui, neste curto espaço, dar conta de razões, processos lógicos, análise de factos, enquadramento da política da altura, dissecar documentos, e nem mesmo relatar, sumariamente, o porquê das conclusões a que este livro nos conduz. E, acreditem, nestas coisas da História, não é fácil conduzirem-me, porque sempre tive uma visão e dimensão da História muito própria. Aliás, o que distingue um historiador de um cientista, é o facto de, para o historiador, bastarem os documentos, e para o cientista, nem sempre só isso, ou nem isso, sequer.
Mas esta questão triangular: Egas Moniz – Afonso Henriques – Portugal, foi sempre uma questão que me intrigou. Há muito que medito na génese da Pátria, tentando abstrair-me da “mitologia” regimental que aprendi na minha escola de outros tempos, eivada de heróis super-homens e de milagres na altura certa.
A grande questão está onde, como e para quê, foi criado Afonso Henriques. E a começarem a acumular-se provas, documentos, evidências, da sua criação por Egas Moniz, num quadro educacional completo de preparação de um líder, não só no aspeto da força e destreza física que se exigia nesse tempo aos chefes, como à educação moral e religiosa necessária à alimentação de valores superiores que sustentassem a tarefa maior da criação de uma Pátria, podemos aportar a uma conclusão que, só por si, alteraria a nossa essência de portugueses. No contexto da Europa da época, perante a ameaça muçulmana, a pulverização dos feudos, a fraqueza militar espartilhada por bandos de cavaleiros, o definhamento social e moral de uma Europa que, em abono da verdade, nem existia praticamente, o Condado Portucalense poderia reunir as condições básicas (localização, enquadramento social e plataforma de defesa) para a implantação de uma nova noção de Europa.
Não é impunemente que o trajeto da 2ª Cruzada passa por aqui e apoia Afonso Hednriques.
?Teria Afonso Henriques sido criado nas penedias do Ribadouro, sobre a proteção e ensino de Egas Moniz, que o instruiu nas artes da guerra, da estratégia e da tática, mas também o imbuiu de espírito emancipador, libertador, com vista a criar um país segundo as normas morais mais elevadas da época (e que se infetavam perigosamente)? Teria o nosso primeiro rei sido preparado para, de facto, o ser? Rei. Não senhor feudal, nem Conde. Mas Rei de uma nova Nação que iniciasse um novo período na História Europeia.
Se assim foi, cai por terra a clássica ideia de um Afonso Henriques brutamontes, mata-mouros, que batia na mãe, se emborrachava e ia à guerra, e se deitava a eito com cada cortesão que com ele se cruzasse.
Passamos a ter um rei superiormente educado e preparado, ciente do seu papel na criação de uma nova Nação, e da importância dessa Nação no derrube da Europa Antiga, dos castelões, dos senhores feudais. A Europa das Pátrias organizadas com sistemas políticos centralizados e leis gerais nos reinos, a Europa do desenvolvimento, da libertação dos vassalos. A Europa da modernidade, pode muito bem ter tido início aqui. Como, 400 anos depois de Afonso Henriques, voltou a ser aqui que a Europa aprendeu a contemporaneidade, quando as naus portuguesas rasgaram as águas dos oceanos.
foto
Acho que toda a região duriense, especialmente as suas instituições, têm aqui matéria que chegue para investigar. Proponho até que Lamego, centro matricial de toda esta génese, crie departamento próprio para o estudo desta questão. Porque ela é demasiado importante para não deixar de ser estudada. Portugal, especialmente nesta altura de crise, pode muito bem readquirir a sua “essência”. Pelo mais certo, Portugal não nasceu às quatro pancadas, mas antes foi a primeira experiência europeia de Pátria.
E se o foi, foi aqui no Ribadouro que esta noção de Pátria amadureceu.
O desafio fica feito.
A toda a região, às suas instituições, a Lamego, principalmente.
Espero também que, muito brevemente, as nossas entidades oficiais concedam autorização à reputada arqueólogo-forense, Drª Eugénia Cunha, para reabrir o túmulo de D. Afonso Henriques, e, com as modernas técnicas científicas, tentarmos saber muito mais dessa figura a quem devemos o país. Do mesmo modo que, e se se quiser ir ao fundo da questão, abrir também o de Egas Moniz, do Conde D. Henrique, e de outros.
Mas sobre este assunto, dado o seu melindre, por aqui resolvo ficar. Não quero que o essencial deste pedido caia em questões (para já) laterais.
E o essencial é continuar-se a estudar a casa de Egas Moniz, o percurso de D. Afonso, e tudo o que sobre o assunto se possa saber. Perder esta oportunidade, é deixar um diamante por lapidar. O Douro não se pode dar a luxos desses.

Por Francisco Gouveia, Eng.º
gouveiafrancisco@hotmail.com

A História do Jornal
Colaboradores
Douro / Rio
Concelhos
Oportunidades
Roteiro
Transmontanos / Durienses +
Adegas +
Informações Úteis
[Utilidades]
[Outras Notícias]
O Meu Jornal
Última Hora
Notícia Importante
(C) 2005 Notícias do Douro - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital.
Design: Notícias do Douro. Email do Jornal: noticias.do.douro@iol.pt