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Arquivo: Edição de 20-04-2012

SECÇÃO: Opinião

Lembranças de outros tempos

Chegada a velhice, chega-me frequentemente, sempre que a memória desperta, a necessidade de fazer reviver os tempos antes vividos – bons ou maus tempos – vindo-me então à mente os momentos que mais me marcaram, alguns dos quais só morrerão comigo próprio.
Quando era muito jovem, os momentos vividos não me marcaram agudamente, mas, com a ida para a Guiné, aos 24 anos, comecei a ter relações de vária natureza e mais incisivas com os meus semelhantes, fossem estes brancos ou pretos, que me forçaram a senti-las com outras responsabilidades e, muitas delas, de modo desusado e surpreendente.
São factos que não esqueço, que me marcaram o passado, e que me tornaram mais adulto e verdadeiramente um homem muito experiente, capaz de suportar de olhos abertos, conscientemente, verdadeiros tornados e trovoadas, fossem estes provocados pela condições da natureza, fossem eles, diferentemente, provocados pela natureza dos outros homens, com as suas múltiplas virtudes ou com os seus muito mais abundantes defeitos.
Toda esta diferenciação foi posta face â minha discutível apreciação, moldando-me relativamente perante cada uma das ocorrências, que eu, por habituação, examinava com espírito crítico.
Aos da natureza, aceitava-os pela sua própria grandeza, muitos deles se transformando - com o treino nos tempos - em verdadeiros espetáculos, que eu admirava, soberanos, apenas me incomodando pelo barulho que faziam, pelas incomodidades físicas que me causavam, como no caso das grandes chuvas, que me encharcavam em poucos segundos, mas que eu suportava com quase indiferença, porque sabia de ciência certa que, passados poucos minutos eu me acharia absolutamente seco. Para estes fenómenos, atuava apenas como um curioso espetador, via-os e admirava-os, tal a força desmedida que sempre apresentavam. Eram espetáculos belos, mas imponentes!
Porém, os espetáculos humanos apreciava-os eu com algum desprezo e sobranceria, raramente se me pondo em termos de me oferecerem algum merecimento. A colonização disponível era constituída pela nossa gente mais comum, gente pouco letrada, mal industriada, que automaticamente se auto valorizava pelo simples facto de as terras de África lhe oferecem como concorrentes os nativos, gente ainda menos alfabetizada, menos conhecedora da simples informação, gente arredada do desenvolvimento, que pouco mais conheciam do que os próprios costumes que referenciavam cada etnia.
Normalmente, o nosso colono realizava, quando servidor do estado, as suas obrigações com mediana eficácia e muitas vezes encontrando soluções que se adaptavam bem às próprias exigência de cada povo local.
Porém, as exigências que os quadros superiores lhes faziam eram frequentemente pouco criadoras e eficazes, raro sendo aparecerem agentes de Estado notáveis, que mais se impunham pela notabilidade dos cargos que exerciam do que pela eficácia das medidas que tomavam. Na realidade - e refiro-me em especial àquilo a que assisti na Guiné - esta se apresentava como adormecida ao longo dos vários séculos da nossa presença. Os nossos colonos eram emigrantes quase sempre gente pobre, necessitados, sem assistência do Estado, passando por dificuldades enormes inicialmente, que os obrigava a encontrarem uma simples palhota onde se poderiam abrigar das abundantes chuvas, o que, em remedeio, os levaria a constituírem rudimentares famílias com as mulheres negras, que se habituaram a esperar do companheiro branco um melhor tratamento a breve prazo.
O Estado, através dos tempos, pouco ou nada investiu na Guiné, nem sequer se aproveitando de alguns parcos recursos do território.
Até pouco tempo antes de aparecerem as primeiras revindicações separatistas, o território tinha todos os aspetos de pacificado, se bem que um ou outro caso de indisciplina ou desrespeito se verificasse, sem qualquer significado.
Rodeada a Guiné pelo Senegal e pela Guiné, ambos estes territórios constituindo partes do Império Colonial Francês, aguardavam na altura os resultados da consulta determinada pelo general De Gaule, quanto â independência que pediam.
As condições reinantes na Guiné logo se alteraram, principalmente pela greve registada em Bissau, no cais do Pijiguiti, com um comportamento excessivo e arrepiante das forças colonizadoras, que responderam aos grevistas, matando quase meia centena deles na água, a maioria tratando de fugir dos disparos de um chefe de brigada da PIDE, que iniciou os disparos em terra firme.
Esta resposta das forças do governo da Guiné, ignorando inteiramente as revindicações, facilitou grandemente a ação de Amílcar Cabral, que, influenciado pela libertação daqueles territórios sob domínio francês e pela negativa portuguesa a qualquer mudança de estatuto político do território, a breve prazo iniciou a luta pela independência, concluída com os resultados conhecidos,
É evidente que senti profundamente a nossa derrota colonial, mesmo porque continuo a pensar que, antes do início da guerra, teriam sido possíveis outras soluções, embora rapidamente a independência do território acabasse por ser concedida, sem se poder evitar a libertação de todos os povos colonizados.
Assistindo a muitos factos que eu próprio repudiava, desde cedo vaticinei a nossa incapacidade para contestar aquilo que a comunidade internacional defendia, embora com interesses muito discutíveis em jogo.
Agora, quando está a chegar mais uma data comemorativa do “25 de Abril”, relembro estes velhos erros, tentando evitar que eles se repitam com o mesmo ou parecido cariz.
Os governantes nunca devem tomar decisões que contrariem o querer do povo e os seus interesses; só poderão ultrapassar esta linha se o povo alterar o que, antes, defendia.
Governo que esqueça ou contrarie este princípio fundamental da democracia comete um crime, pelo qual deve responder, não só política como criminalmente. A democracia - não é demais repeti-lo – tem regras, cujo cumprimento tem de ser respeitado.
Governar é difícil, Mas “o povo é quem mais ordena”, Defendamos este princípio, defendamos assim o “25 de Abril”..

Por Abeilard Vilela

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