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Arquivo: Edição de 30-11-2007

SECÇÃO: Opinião

SENTIDO DE AMOR

Naquela tarde, quando o sol ainda ia a pique ela estava sentada naquele café que tantas vezes durante todo o ano frequentava, contudo na altura das férias ficava insuportável por causa dos imigrantes. Ela estava feliz, as férias estavam a acabar e por conseguinte a sua pequena aldeia iria ficar calma e pacata como sempre.

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Ela já ouvira falar dos novos habitantes que iriam morar mesmo ao lado do cemitério, mas nunca os tinha visto. Naquela tarde pode vê-los. Era uma família aparentemente normal: a mãe, o pai, um filho ainda ao colo e outro com mais dois anos que ela. Todos entraram no café, sentando-se ao lado da mesa dela e aí ela pode constatar que os rumores que rondavam aquela família eram verídicos. Pai, camionista; Mãe, professora primária; Filho mais novo, dois anos e meio; Filho mais velho, drogado, parecia um morto vivo, muito magro, com olheiras profundas cravadas no rosto. Os seus bracitos muito magros mostravam as marcas negras das picadelas.
As aulas recomeçaram. Ele foi para a turma dela. Estava em tratamento e nada como novos amigos e um novo lar para recomeçar do zero. Ninguém se aproximava dele, excepto ela. Depressa se deram bem, tornaram-se bons amigos, ele ainda preso à heroína, tentava evitar a sua picadela diária. Apaixonaram-se. Ela ajudou-o e rapidamente ele estava abandonar a droga com sucesso. Passaram a sair juntos, arranjavam as desculpas mais absurdas para estar um ao lado do outro.
A vida deles estava num mar de rosas, mas os espinhos surgiram. A família dela era contra o seu namoro. Afirmavam que um ex-drogado era incapaz de amar, de sentir qualquer tipo de sentimento, excepto vontade de se atirar novamente à heroína, arrastando consigo todas as pessoas que o rodeavam. Que o pouco dinheiro que possuísse voltaria a segurar aquela corda invisível que o iria arrastar para os recantos mais nauseabundos, asquerosos, nojentos em busca da picadela fatal.
Ela defendia-o com unhas e dentes. Amava-o. Sentia por ele algo tão forte que passava noites em brancos, dias a sonhar acordada. À medida que o tempo passava os pais dela temiam por ela. Pensavam que mais tarde ou mais cedo ela também iria ser arrastada para o mundo da droga, acabando na prostituição, levando consigo toda a sua família, as pessoas que mais gostavam dela, todos aqueles que a rodeavam, morrendo numa estação de comboio com uma seringa espetada no braço ou mesmo apodrecendo na cadeia. Foi proibida de o ver. De manter qualquer contacto com ele. A vida de ambos desmoronou. Ela queria fugir, ele recusou.
O pai dela passou a controlar todos os seus passos: ia leva-la e busca-la da escola, escutava as suas conversas ao telefone, controlava-lhe o correio, tirou-lhe o computador e o telemóvel. Ela nunca mais sorriu. Ele voltou a ter recaídas e passou a fumar, primeiramente só um cigarro mais tarde passou a ser dois maços por dia. Acaba assim o ano lectivo.
Novamente em férias ela foge de casa. Ao fugir é atropelada. Vai rapidamente para o hospital, passa horas a ser consultada. Passa a estar presa ás máquinas. O seu coração fora muito danificado e só um transplante em 24 horas a podia livrar da morte.
A família dela entrou em pânico, como arranjar um coração em apenas um dia?
Ninguém queria acreditar, o tempo foi passando. Nenhum coração surgia.
O transplante foi um sucesso. Ela acordou, e nas três semanas que esteve internada ele nunca a visitou. Teve alta e regressou a casa. Ela ia com uma fina esperança que ele estava à espera dela, mas nada.
Seu pai nunca mais falara nele.
Ela durante uma semana olhou pela janela tentando vê-lo aproximar-se de sua casa. Mas, no dia que completaria um ano que se viram no café ela recebe uma carta. Reconhece a letra, rasga o envelope e lê:

“Minha amada
Obrigado por todo o apoio. Obrigado por me ajudares a preencher os espaços em branco da minha vida, a renascer das cinzas, a dar sentido aos meus passos Não iria aguentar se fosses minha vizinha, sabendo que fugiste por minha culpa. Eu amava-te mais que tudo neste Mundo, se pudesse dar-te-ia uma vida muito melhor, dar-te-ia o céu, as estrelas.
Os castelos de areia que nós construímos nas mesas do café desmoronaram, as ondas levaram os nossos sonhos, os nossos desejos, as nossas ilusões, aquele Audi foi o Adamastor dos oceanos que eram as nossas vidas.
Decidi partir, mas meu coração fica contigo. Levo na minha memória o brilho do teu olhar, aqueles momentos passados em silêncio ao luar, as nossas promessas de Amor sob escuta de teu pai. Lembra-te que existem coisas na vida que não voltam: a pedra, depois de atirada; a palavra, depois de proferida; a ocasião, depois de perdida; o tempo depois de passado, por isso vive cada momento como se fosse o último.
O nosso Amor será eterno, mas para quê tantas palavras se os gestos calam todas as bocas.
Meu coração sempre será teu,
Beijos suaves como a mais bela brisa, Amo-te eternamente”
Ela chorou amargamente, e nesse instante percebeu o verdadeiro Amor, o sentido de dizer “Amo-te”. Correu para o seu novo lar, onde ele estava sorridente na fotografia. Uma brisa leve passou-lhe pelo rosto, sentiu que era ele que a beijava em silêncio.
Ela chorava intensamente. Suas lágrimas eram concebidas no coração, derramadas nos seus olhos, rolavam pela sua face e caíam no tumulo dele, manchando-o com marcas de sangue.

Filomena Pereira
N.º 9 – Turma C – 12.º Ano
Escola Secundária Dr. João de Araújo Correia

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