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Edição de 11-04-2014
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DOURO Rio

O Rio Douro  

É o Douro rio suave de nome, mas duro de percurso. Caracterizam-no a magestade olímpica das margens que nos tempos floridos o emolduram em movimento contrastante com a impetuosidade selvagem das suas águas nos dias de cheia e que servem de mote à sensibilidade artística dos literatos e poetas, de músicos e trovadores de matriz durío/transmontana.
   Se muitos já o contemplaram na serenidade esverdeada, das albufeiras, poucos o conhecem na ferocidade turbulenta das águas, suspenso pelo betão das barragens em direcção à foz. .
   Muitos que o percorreram por estrada ou pelo caminho de ferro dele se enamoraram. Deixemo-nos enlevar pela descrição de Jaime Cortesão, em Terra e o Homem: «... É o Douro um rio de montanha que sulca abismos com declive tormentoso. Corre como um rei cercado e aflito, chocando contra as muralhas do castelo. Desde longe, desde a raia, vem rugindo de salto em salto, por degraus duma escadaria ciclópica, as « galeíras », e todas tão difíceis de navegar que nalgumas, como a « Olha da Brulha », onde a água ferve e redemoinha, ou nas catadupas do « Cachão da Valeira », no « Cadão » e na « Bula », contam-se por centenas os barcos que, arrebatados pelas águas, se espedaçaram contra as rochas.

O Douro continua a ser o maior cachafundão de Portugal. Álgido e ardente. Desde a boca até o fundo escalam-se todos os climas nevados do Marão e as veigas tépidas do Algarve; mas, regada pelo suor do homem, a fraga desabrochou. Encosta abaixo medra o carvalho negral, o castanheiro, a oliveira e o sobreiro; e sazonam em frutos incomparáveis as laranjas do Tua, as vinhas do Roncão, as cerejeiras de Penajóia e as amendoeiras de Freixo de Espada à Cinta.
E foi assim que o Douro se tornou a melhor vinha e o melhor vergel de Portugal; que os homens roubaram aos deuses, para a oferecer aos mortais de todo o mundo, a ambrósia divina; e que uma raça de gigantes ergueu o mais belo e doloroso' monumento ao trabalho do povo português.

Esses foram e são os Lusíadas sem Camões.

Dois ilustres professores da Universidade do Porto, « em Alto Douro », da colecção Novos Guias de Portugal, descrevem-no galgando em passos de gigante, desde as origens genesíacas, na serra do Urbion até ao seu engolfamento na foz. «... Natural de Espanha, o Douro entra em Portugal em terras de Miranda, em talvegue pedregoso e abrupto, cavado fundo. Daí até à confluência do Águeda, é o Douro internacional que separa os concelhos de Miranda, Mogadouro e Freixo de Espada-à-Cinta do país vizinho.

Quatro barragens demoram-lhe o ímpeto com que corria outrora pelas invemadas. Socalcos de água, as albufeiras de Bemposta, Miranda, Aldea d'Ávila e Saucelle vieram tomá-lo mais ancho e mais calmo.
No concelho de Freixo de Espada-à-Cinta, depois de passado o ponto do Saltinho, durante séculos local de travessia para a margem sul e limite de navegação, o rio alarga-se, ganha maior caudal com as águas que lhe traz o Águeda na fronteira beirã com o país vizinho. Daí para a frente, o Douro português corre entre margens mais alegres, de horizontes mais amplos, engrossando com as contribuições sucessivas de um grande número de rios e ribeiros afluentes. Em dois pontos mais levantar-se-ão os fragões das margens a estreitá-lo. Junto a S. Salvador do Mundo, na Valeira, e junto a Barqueiros onde se defrontam as linhas de relevo do Marão e do Montemuro.
Durante séculos o Douro foi temido. Os homens afastavam-se das margens com medo das cheias violentas de invernos chuvosos e das febres palustres de Verão quando o Douro era um fio. no leito seco. Por isso as povoações ribeirinhas que hoje existem são relativamente recentes, como o Pinhão e a Régua, Pocinho ou Barca d'Alva, outrora pequenos núcleos de cabanas de barqueiros e pescadores.

Navegar neste rio era difícil.

Cachões e rápidos, só com destreza e fé dos marinheiros e . um barco apropriado se passavam. O pior era o da Valeira, até final do século XVIII fragão intransponível donde as águas reprimidas caíam em açude, no cenário dantesco da penedia abrupta das margens. Mesmo depois de queb rados os rochedos que impediam aos barcos a passagem ( 1792 ), só com o credo na boca e a alma entregue a S. Salvador .do Mundo, que lá em cima velava, os marinheiros, de braços tesos, ganhavam coragem para seguir em frente. Muitos lá ficaram... Entre os naufrágios conta-se o do Barão de Forrester que aí morreu, dizem, com o cinturão de libras de ouro que o levou ao fundo. Mais sorte teve a sua anfitriã dos dias passados na Quinta do Vesúvio, que, na tradição popular, teria ficado a boiar nas saias rufadas em balão. Dos marinheiros poucos se salvaram. E muitos outros lutos por naufrágio, que o rio tinha galeiras por aí fora. E poços, e dornas, sorvedouros de tantas vidas.» ( in Alto Douro, pág. 18 )

As Cheias do Douro  

Ciclicamente, de dez em dez anos ou até de cinco em cinco, o rio tem o condão de pôr em pânico as populações ribeirinhas das cidades, vilas e aldeias por onde passa. A testemunhar seus galgares de fora do leito abundam por toda a parte, junto ao rio, várias placas referentes à cota atingida pela água neste ou naquele ano. E o que é realmente interessante é a circunstância de a cheia se repetir pelo Natal ou pelo Carnaval. As cheias fazem parte do fluir do próprio rio.

Evoquemos a cheia de 1860:

« Começou rigoroso o inverno de 1860. As tempestades sucederam-se. Tão copiosas e persistentes foram as chuvas, que o rio Douro, avolumando extraordinariamente as suas águas, atingiu, em poucos dias, a altura do paredão do cais e principiou a inundar o fundo da vila.
    Os habitantes das margens empenhavam-se desordenadamente em retirar de casa os seus móveis, amontoando-os aqui e além, de onde eram reconduzidos para armazéns afastados que à disposição de toda a gente se abriam.

Era bem patente na memória dos reguenses este movimento afadigoso dos pobres carrejões e pescadores, quase todos os anos desalojados dos seus tristes albergues; mas ninguém supunha, apesar disso, que o rio avançasse muito mais. Toda a gente se enganou. Por tarde da noite de 26 de Dezembro, a população acordou sobres saltada aos toques de rebate dos sinos e aos gritos de socorro que se ouviam em várias direcções. Então observou-se ao longo das margens um sussurro que o bramir da tempestade sufocava, uns clarões que o vento de quando em quando extinguia. Noite tenebrosa. A chuva compelida por furacões e as caudalosas correntes de água das ruas, concertavam um sussurro semelhante ao branir de um Oceano revolto. Trevas cerradas, rasgadas de quando em vez pelo clarão dos relâmpagos que tudo parecia incendiar. O rio, em largas maretas, galgava tão rapidamente quase toda a rua Direita, que dela surpreendeu na cama alguns moradores, sendo necessário tirá-los de suas casas pelas janelas, para barcos. Outro tanto sucedeu no Olival Vasto e na Barroca do Salgueiral, de onde as rajadas de vento traziam gritos de aflição.

Que luta foi necessário empreender para acudir a toda a gente que de todos os pontos gritava por socorro ! Aqui removiam-se mobílias, acolá mudavam-se estabelecimentos de peixe, graneis de sal, mais além despejavam-se armazéns de vinhos. Ao fundo da rampa do Midão, a cobertura de um armazém pertencente a D. Antónia Adelaide Ferreira, flutuava sobre grande quantidade de cascos vazios; que a corrente levou. Ao fundo da rua do 1° de Dezembro, um pequeno teatro que havia, estava já, com todo o cenário e móveis, debaixo de água. Atracavam-se os tectos de três armazéns pertencentes a Camilo de Macedo, no Cais de Cima que, movendo-se na superfície do rio, estiveram em risco de tomarem o fio de água.
     Um trabalho fatigante, cheio de pragas e lamentos, de desesperos e lágrimas, de aflições e súplicas, insano, ensurdecedor.

Ia amanhecendo, sem que os habitantes da vila cessassem, um único momento de tão penoso labor, quando novos sinais de alarme reboaram com a impetuosidade da tempestade. O rio, galgando a rua Nova, minara os alicerces de todas os prédios, e estes, rangendo, fendiam e ameaçavam desabar. Construídos em pavimento mais alto, ficaram com as bases na superfície do solo por necessidade de melhoramentos municipais. Redobrou a luta, estendeu-se a fadiga, aumentaram as canseiras, cresceu o barulho, previram-se enormíssímas calamidades, o terror invadiu o espírito de muita gente.
     Ouvem-se tiros para os lados do Olival Basto. A casa ' de António Rodrigues Pacheco de Almeida submergia no meio de um oceano açofarado, e, do telhado dela, alguém dispara tiros de espingarda pedindo socorro. Imediatamente, pela rua da Ameixieira, rumo da estrada fora, navegavam barcos em auxílio daquela gente desesperada, que teve de sair de casa pelo telhado. Alguns barcos ainda, ao largo, seguiam a corrente na esteira de qualquer volume mais estranho, que ela velozmente agastava. Em frente desta vila, foi sustido um berço em que uma pobre criancinha ia deitada e distraída. No sitio do Coval foi amarrado à casa de Joaquim Augusto de Seixas Vaz Osório, um tonel de vinte pipas de vinho, pertencente a João Polónio, da Pesqueira, de cujas margens veio correndo. Grandes barcos em forma de gamela ( usadas no rio Tua ), barracas de madeira, tectos de casas, pipas, árvores colossais, cadáveres, animais, tudo a corrente arrastou até aqui e levou, isto durante os dias 26 a 28, em que a Régua esteve debaixo dos horrores de um verdadeiro dilúvio. Durante este tempo o rio engrossou à altura de 24 metros aproximadamente acima do seu nível na estiagem: isto é, chegou até à esquina do edifício da Companhia da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, do lado da rua Nova, agora rua do Marquês de Pombal intérceptando a enfiada da estação telegráficas

( José A. de Oliveira Soares, História da vila e concelho do Peso da Régua, 1936 )

 

 

 

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